17 de dez de 2008

Ecos do Maraca entrevista: Rafael Casé

De manhã no Redação Sportv, à tarde falando para o Ecos do Maraca...

Rafael Casé , 45 anos, é formado em Jornalismo e Relações Públicas pela Uerj, onde também é professor. Com passagens pelas TV’s Manchete, Globo e SBT, atualmente está na TV Brasil, onde trabalha como diretor do programa “Observatório da Imprensa”. Com quatro livros publicados, Casé nos recebeu para uma entrevista acerca do lançamento do último deles, a biografia "O Artilheiro que Não Sorria - Quarentinha , o Maior Goleador da História do Botafogo". Eis a conversa:

Socialmente e futebolisticamente falando, quem foi Quarentinha?

Rafael Casé: Como jogador, foi um goleador nato, tinha um chute com a perna esquerda muito potente, embora também soubesse bater bem com as duas pernas, cabeceasse e armasse jogadas bem, o que fez com que, segundo nosso levantamento, ele marcasse cerca de 500 gols em sua carreira, sendo 313 pelo Botafogo, em aproximadamente dez anos de clube. Como pessoa, era extremamente reservado e em sua casa não se falava sobre futebol, não desejava que seu filho seguisse a mesma carreira. Era uma pessoa muito fechada. Só se abria com quem tinha muita intimidade, o que fez com que sua imagem para o público em geral fosse de alguém que não sorria.

Por que a opção por Quarentinha?

RC: Na verdade, o Quarentinha me escolheu. Para mim, foi um prazer, porque pude resgatar a história de um sujeito que tem muita importância no futebol do Botafogo e do Brasil , até porque um perna de pau não faz mais de 300 gols, mas somente um craque. O que admiro neste livro é que ele traz Quarentinha de volta para os torcedores do Botafogo, mostrando que é mais um jogador importante da história. Já havia biografias publicadas de Didi, Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, ou seja, agora todos esses craques estão juntos novamente, só que na estante.

Dentre tudo que foi pesquisado, há alguma história pitoresca que se destaque acerca da vida de Quarentinha?

RC: Há uma história muito interessante sobre as viagens que se fazia àquela época. O time do Botafogo foi jogar na Suíça, onde os hotéis tinham um preço elevado, fazendo com que os dirigentes resolvessem colocar os jogadores num hotel na França. A equipe foi jogar às dez da noite e depois da partida houve uma recepção no hotel onde estavam hospedados os jogadores, o que os deixou acordados até as quatro da manhã. No dia seguinte, estava marcado um almoço na embaixada na Suíça, o que os fez retornarem ao país. Acabado o almoço, a delegação pegou um vôo para o Egito, onde chegaram somente à noite. Impressionados com o barulho que ouviam, descobriram um drive-in ao lado do hotel em que se passavam filmes eróticos, o que os fez permanecerem acordados até a madrugada. Por fim, no dia seguinte, os atletas estavam jogando uma partida contra o combinado do Egito, às 14h, sob um sol de 50° C, à sombra. Mesmo com essa loucura de fusos horários, todos adoravam, era uma vida que nenhum deles havia sonhado ter.

"{O Quarentinha} era uma pessoa muito fechada. Só se abria com quem tinha muita intimidade, o que fez com que sua imagem para o público em geral fosse de alguém que não sorria".

Como foi o processo de pesquisa?

RC: Começamos conversando com a família e, a partir daí, procuramos jogadores que jogaram com e contra ele, jornalistas da época, etc.Paralelamente a isso, fizemos uma grande pesquisa em periódicos, em revistas esportivas e jornais da época, para que pudéssemos fazer esse amarrado no conteúdo.

Como foi sua reação à recepção do público quando do seu lançamento?

RC: O lançamento de um livro é algo muito curioso. Fico pensando no que leva uma pessoa a ir a um lançamento de um livro para pegar o autógrafo de uma pessoa que ela não conhece. Só pode ser por uma identificação muito grande com o tema e daí ter a curiosidade de conhecer quem escreveu. Foram muitas pessoas que tinham visto Quarentinha jogar, pessoas de mais idade que estavam gostando de ver sua história ser contada. Um exemplo disso foi uma senhora de uns 70 anos que apareceu lá espontaneamente, sem companhia, pegar seu livro. Isso é muito bacana.

Como você enxerga essa relação entre o público-torcedor que não viu Quarentinha jogar e o livro? Qual é o papel do livro nela?

RC: A literatura esportiva tem crescido bastante, porque há procura. As pessoas têm interesse em buscar a história, a questão é que vivemos numa sociedade que valoriza muito pouco a leitura. A história de Quarentinha a princípio parece atrair somente quem torce pelo Botafogo, mas o livro é muito mais do que isso, é um retrato de duas décadas muito importantes para o futebol brasileiro, que é uma expressão da cultura do país, da sociedade da época , traçando um panorama de um período muito importante para o Brasil.


Por que Quarentinha não tem tanto reconhecimento pelo público?

RC: O Botafogo valoriza muito pouco qualquer jogador, até mesmo Garrincha e Nilton Santos só foram valorizados mais recentemente. Quanto ao caso de Quarentinha, acho que se deve principalmente ao seu temperamento. Ele não era um jogador marqueteiro, não buscava se autopromover. Atualmente, o jogador faz três gols e busca aparecer de qualquer forma. Sendo assim, seu temperamento arredio fazia com que ele não se aproximasse da mídia, o que acabou se refletindo na torcida. A seu favor, Quarentinha teve as estatísticas. Ele não foi esquecido porque é e nunca deixará de ser o maior artilheiro da história do Botafogo. Assim como Dinamite no Vasco ou Zico no Flamengo, Quarentinha nunca será ultrapassado como maior artilheiro do clube, até pela realidade atual do futebol.

Existe algum outro jogador do Botafogo que não tenha tido o devido reconhecimento à sua obra e que merece ter sua história estudada?

RC: Vi o Manga jogar no fim de sua carreira no Internacional, e ele ainda era um grande goleiro. Quem o viu jogar diz que ele foi um dos maiores goleiros de todos os tempos do futebol brasileiro. Também não é tão lembrado porque era uma pessoa igualmente simples, de poucos estudos e que não teve oportunidades em Copas do Mundo. Embora não tenha sido goleiro de Copa, onde jogou foi ídolo, desde o Uruguai até o Rio Grande do Sul, não sendo diferente com o Botafogo. É o tipo de jogador cuja história é interessante de se contar, porque não é só a trajetória esportiva, porque há toda uma trajetória pessoal que se confunde com a realidade do clube, da cidade e do país. Isso que é bacana na biografia.

"...a partir dessas personalidades a pessoa pode conhecer mais sobre o seu país, o que indiretamente faz com que o indivíduo se interesse por outros assuntos do passado que talvez não fosse buscar num livro específico sobre tal tema".

Você pensa que, no futebol atual, existe algum jogador que possa ter essa relevância para um clube a ponto de se lançar uma biografia atrelada ao time?

RC: Muito difícil, talvez apenas Rogério Ceni possa representar uma exceção, por toda a imagem que conseguiu montar no São Paulo e por sua determinação de, mesmo tendo chance de sair do clube por um proposta melhor, ficar no time. O Rogério, além de ser um atleta de um clube só, ele tem um currículo com muitos títulos. Porém, ele é uma exceção, porque hoje em dia por qualquer “três mariolas” os jogadores estão saindo.

Existem muitas dificuldades para quem edita e escreve livros no Brasil?

RC: Escrever livro é só prazer. Dá muito prazer, mas não dinheiro. Se pudesse só trabalhar nisso, seria o que faria, mas há de se trabalhar em outras coisas para poder se sustentar. Ainda existe a questão da editora. Evidentemente, se o assunto é mais popular, há mais chance de se ter uma boa editora. Mas há toda uma estrutura editorial que dificulta as coisas, porém, se você tem uma grande editora, tudo é mais fácil. Ela deixa os livros mais expostos.

A falta de leitura contribui para a diminuição relativa da memória da sociedade?

RC: Certamente, não temos o hábito de resgatar biografias, isso é muito raro em comparação com o que se vê em outros países. Porém, isso está mudando, notadamente nesse ramo da biografia, o que é bacana, porque a partir dessas personalidades a pessoa pode conhecer mais sobre o seu país, o que indiretamente faz com que o indivíduo se interesse por outros assuntos do passado que talvez não fosse buscar num livro específico sobre tal tema.

Canhoto e Rodrigo Paradella

5 comentários:

Etchatz disse...

Muito legal a entrevista, caro Canhoto, O ecos ganha vida. Agora o Bony pode saber um pouco mais do tão, por mim, falado Quarentinha.

Rodrigo Paradella disse...

Em breve teremos uma entrevista com o Luizinho Rangel, técnico do juniores do Botafogo, que eu fiz pro js online.

Deixa só sair no site... ahaha

Rodrigo Paradella disse...

E uma retrospectiva do Bota também...

As duas matérias já estão prontas inclusive ahaha

Etchatz disse...

furo o olho do js bonilla, posta logo aqui.

Renan disse...

Cara, muito interessante a entrevista. É uma pena que não apenas o Botafogo, mas a maioria dos clubes despreze tanto seu passado e seus ídolos. Pouco tempo atrás o Leivinha foi barrado no estacionamento do Palmeiras. Além disso, no dia da festa pelo lançamento do filme do Thiago Silva, o ex-zagueiro Pinheiro, ídolo dos anos 50, reclamou da falta de reconhecimento por parte do Fluminense. É uma pena, mas obras como essa são importantes pra não deixar morrer a memória do nosso futebol, principalmente naqueles tempos em que o futebol era mais nosso, já que não se vendia por 3 mariolas.

Forte Abraço!